Monday, February 26, 2007

Credo quia absurdum (26/07/02)




O peso da idade caiu-me...maciço
nos ombros
pela primeira vez vi-me
caricatura odiosa e patética
daquele que eu nunca quis ser...


Acordas e vês-me do outro lado da cama
a cara pálida e enrugada de quem tem medo do que sonha
ao abraçares-me afagas as asas de um anjo caído...



**Capítulo 12: As Asas Caídas**

Naquela manhã cinzenta, Miguel despertou com o peso da idade sobre seus ombros. Os anos haviam passado como uma pedra maciça, e ele sentia o fardo de todas as escolhas e experiências que acumularam ao longo de sua vida. Ao se olhar no espelho, viu um reflexo que o surpreendeu, uma caricatura odiosa e patética de si mesmo, uma representação da pessoa que jurou nunca se tornar.

Seus olhos cansados e enrugados refletiam a jornada que ele havia percorrido, marcada por erros e medos que o assombravam. O espelho não era apenas uma superfície refletora, mas um portal para a autocrítica, um espelho de sua própria alma envelhecida.

Aos poucos, ele se ergueu da cama, sentindo as articulações rangendo como se fossem engrenagens enferrujadas. Seu corpo já não respondia com a mesma agilidade de outrora, e a ideia de que o tempo era implacável pesava sobre ele.

Do outro lado da cama, sua companheira de vida, Ana, acordou e olhou para Miguel com ternura. Seu rosto pálido e enrugado não era motivo de medo para ela, mas sim de compaixão. Ela enxergava nele a beleza das cicatrizes da vida, as marcas de um sobrevivente. Ao abraçá-lo, acariciou as asas de um anjo caído, as asas que, apesar de feridas, ainda eram capazes de voar.

Miguel sentiu o calor do abraço de Ana e percebeu que, apesar do peso da idade e das caricaturas que o assombravam, havia beleza na aceitação e no amor. Ele podia não ser mais o homem que imaginara, mas ainda era capaz de amar e ser amado. A idade, afinal, podia trazer sabedoria e uma apreciação mais profunda pelas coisas simples da vida.

Naquele momento, Miguel percebeu que a jornada da vida não era apenas sobre as estradas percorridas, mas também sobre as pessoas que encontramos ao longo do caminho e as maneiras como nos reinventamos, aceitando nossas imperfeições e buscando a redenção.






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